Guerra dos Tronos

Não vi Pelé jogar. Sequer imaginava nascer quando ele construía seu império como Rei do Futebol. Inegável, entretanto, a importância dele para o esporte e os milagres que conseguia realizar com a bola nos pés.

Os 1281 gols marcados por Pelé não foram “apenas” bola na rede. Eles representaram incontáveis conquistas, grande parte delas com a camisa do Santos, pelo qual arrematou dez títulos paulistas, seis títulos nacionais, duas conquistas da Libertadores e Mundial de Clubes (1962 e 1963). Na final de 1962, ele fez três gols na vitória por 5 a 2 sobre o Benfica.

O mundo ajoelhou-se diante do Rei graças a magia que carregava nos pés. A versatilidade em cada passe, cada drible, cada finalização está eternizada na história do futebol e em vídeos que são uma verdadeira homenagem a essência do que é jogar por música. Dono des três conquistas mundiais (58-62-70) com a Seleção Brasileira, a última, com o craque sendo destaque em uma equipe recheada de grandes jogadores, teve a carreira coroada ao ser escolhido Atleta do Século em 1980. Um reinado observado de longe pelos adversários que apenas sonham em seus sotaques, se aproximar da grandeza do Rei.

Guerra declarada

Mas na última década, um argentino declarou guerra e tem ameaçado um reinado de décadas. A Guerra dos Tronos chegou às quatro linhas e batalhas épicas entre a história e o presente têm sido travadas gol a gol, semana após semana, campeonato após campeonato. Lionel Messi tem feito esforços sobrehumanos para superar a realeza da bola.

Não há, no futebol atual, um jogador tão decisivo e com tanta regularidade quanto o camisa 10 do Barcelona. Genialidade em dribles e finalizações que, aos olhos de quem assiste, parecem simples, mas são um verdadeiro pesadelo para marcadores adversários e goleiros rivais.

Até a década passada, a pergunta sobre quem era melhor, Pelé ou Maradona, servia mais para movimentar debate esportivo do que propriamente questionar uma hegemonia traduzida em habilidade, conquistas e números. Hoje, assistir a um jogador atuar jogo após jogo, por tantos anos, em tão alto nível, desperta uma inquietação real sobre quem é maior: o mito Pelé ou o extraterrestre Lionel Messi.

Na última década, o argentino tem se tornado uma ameaça real para destronar o maior de todos os tempos. Apareceu pela primeira vez entre os três melhores do mundo em 2007, quando ficou atrás do brasileiro Kaká, então no Milan. Em 2008, o craque repetiu o desempenho e ficou em segundo, desta vez, atrás de Cristiano Ronaldo que vestia a camisa do Manchester United. Depois dali, Messi dominou o prêmio, venceu por quatro anos consecutivos (2009, 2010, 2011, 2012) e depois, novamente, em 2015. E caminha para levar a premiação pela sexta vez.

Diante do Liverpool, da Inglaterra, na primeira partida das semifinais da Champions de 2019, fez dois, chegou ao 600º gol e, com 31 anos, persegue de perto a marca de recorde de gols com a camisa do mesmo clube, hoje de Pelé, que tem 643 pelo Santos. Se for levada em consideração a média de gols do argentino desde 2010, superior a 50 tentos, a queda da marca é apenas questão de tempo.

A genialidade do jogador tem despertado inquietação até mesmo de psicólogos, biomecânicos e neurocientistas que tentam desvendar de onde vem as decisões imprevisíveis, os movimentos imparáveis e a longevidade de um desempenho que parece não ter fim.

Um talento inato que tem derrubado certezas com um futebol objetivo e miraculoso. Superneurônios capazes de transformar intuição em um vislumbre do futuro. Uma capacidade incrível de antecipar decisões dos adversários, como se pudesse não apenas antever o movimento rival, mas também atuar numa vibração superior para ultrapassá-lo, conforme aponta estudo publicado no The Journal of Biological and Medical Rhythm Research sob o título “O cérebro de Lionel Messi tem o poder de retardar o tempo?”

O homem que decretou a Guerra dos Tronos do futebol é um predador frio, cuja facilidade em adaptar-se e modificar decisões num relance o torna fatal. O estudo publicado por Frontiers in Psychology garante: ele é único em sua espécie.

Quem vence?

No fim das contas, talvez nunca saberemos quem venceria essa Guerra dos Tronos. Se o legado de Pelé contado e recontado como histórias de um Rei responsável por transformar batalhas campais em alegria para seus súditos e arrancar reverência dos rivais ou a magia de Messi, ser de outro planeta, capaz de desafiar o espaço-tempo, hipnotizar adversários e encantar torcedores?

A nós, resta viver essa dúvida deliciosa que só nos faz amar ainda mais esse esporte de reis, extraterrestres e gigantes.

Um comentário sobre “Guerra dos Tronos

  1. Bom dia amigo. Confesso que somente iniciei a leitura sobre a a comparação de Pelé com Messi, e passei a escrever. Nao tiro de formavalguma as grandes qualidades e virtudes do Messi, mas dai a compará-lo a Pelé, ainda há uma distância enorme a ser percorrida. Para mim, Pelé está acima de todos. Os outros nós podemos comparar: Di Stefano; Mazzola; Didi; Rivelino; Maradona; Zico; Socrates; Falcão l; Cruyff e tantos outros, que nos dão prazer de vê-los jogar. Pelé é o atleta do século, e quem julgou certamente o viu dar alguns shows com a bola nos pés. Tenha um ótimo fds. Um abraço.

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