Heróis não morrem

Parecia um domingo qualquer com a família, na praia de Redinha Velha, na zona Norte de Natal, capital potiguar. Ao sair de casa pela manhã, eu dificilmente imaginaria que aquele dia ficaria guardado na minha memória até hoje. Eu tinha oito anos de idade. Era um dia de Sol, de areia tomada por gente naquele feriado do Dia do Trabalhador de 1994.

Morte de Senna no Grande Prêmio de San Marino completa 25 anos

Mas não era um dia qualquer. Às 9h17, horário de Brasília, aparelhos de TV em todo o Brasil mostravam a bandeira vermelha tremulando no 14º Grande Prêmio de San Marino, em Ímola. Um 1º de maio trágico para uma criança que perdia, de forma absolutamente precoce, o primeiro ídolo dela no esporte. Ela e o Brasil ficavam órfãos de um de seus maiores ídolos da história.

Eu e meus pais passávamos por uma barraca, enquanto aquele pequeno televisor de 14 polegadas mostrava um reprise do acidente que acabara de ocorrer. O som estava baixo. Não era possível ouvir o que era dito na narração, mas a batida na curva Tamburello a mais de 200 quilômetros por hora dava pistas de que o piloto naquele carro teria dificuldades em sair ileso de um choque tão violento.

Curiosos começavam a se juntar próximo ao balcão da pequena barraca e o garçom resolveu aumentar o volume. Ainda deu tempo de ouvir o narrador Galvão Bueno falar sobre o breve movimento de cabeça de Ayrton Senna dentro do carro da Williams. A angústia na voz de Galvão traduzia a de todos que acompanham aquela cena inacreditável.

A bandeira vermelha foi exibida na tela e a corrida paralisada, assim como a respiração de cada brasileiro que acompanhava o então tricampeão mundial de 34 anos no auge de sua carreira. Os pouco mais de 1m30s para a chegada da equipe médica ao local em que o piloto estava parecia uma eternidade num fim de semana já traumático. No dia anterior, o austríaco Roland Ratzenberger falecera durante os treinos. Antes disso, o brasileiro Rubens Barrichello sofrera um acidente na mesma curva que Ayrton.

Aquela temporada era de sonho para os admiradores do piloto ocupava o assento do carro da Williams pela primeira vez. A temporada trazia uma expectativa ainda maior sobre os grandes feitos que ele poderia realizar com a potência da escuderia, que dominava a categoria nos dois últimos anos.

Saímos sem olhar para trás e seguimos de volta para casa. No fusca cinza que me levava, não era possível ter qualquer notícia sobre o andamento da situação. Era difícil conseguir sequer prestar atenção no que meus pais conversavam. Estava apreensivo, mas a esperança tornava impossível acreditar que o homem que voava baixo mesmo sob um temporal não fosse surpreender. Era claro que, horas depois do acidente, ele iria aparecer numa imagem de TV com o simpático sorriso no rosto e brincando sobre seus curativos.

Quando entramos em casa, corri para ligar a TV. A disputa havia sido reiniciada, enquanto todos estavam ansiosos por notícias sobre o estado de saúde do piloto. Michael Schumacher venceu o GP que, na verdade, não terminara para os brasileiros, com a bandeira quadriculada, mas quando a vinheta do plantão da Globo trouxe a notícia da morte de Senna.

Nunca havia sentido aquela sensação. Muito jovem, ainda não conhecia o luto. Sai cabisbaixo para a frente da pequena casa. Subi no muro e lá sentei. Fiquei por vários minutos imóvel, olhando o vazio, enquanto a cena do carro azul e branco se despedaçando repetia na minha cabeça. Estava triste e as lágrimas involuntárias que desciam pelo meu rosto eram a prova do que eu havia perdido. Um dos meus herois de infância havia partido para sempre.

Mas como poderia? Nos desenhos e filmes, eles caíam, mas sempre se levantavam prontos para o confronto seguinte até conquistar a vitória impossível. Não haveria mais a ansiedade por despertar cedo nos domingos de manhã. Não haveria mais “tema da vitória” e bandeirola do Brasil tremulando nas mãos. Não haveria mais a ousadia de um ser humano que contrariava a leis da física para ultrapassar os rivais, que tinha a coragem para subverter até mesmo as regras ao seu talento sobrenatural para ir ao lugar mais alto do pódio.

Não vi parte da história de Senna ser construída. Sequer era nascido quando ele, em 1984, conduzia sua Toleman, em Monâco, para superar a chuva, sair da 13ª colocação e por pouco não vencer. Também não pude assistir a primeira vitória dele, um ano depois, em Portugal, onde consolidou seu domínio em provas “debaixo d’água”. A pouca idade também não me permitiu ver o primeiro título mundial do brasileiro, no Japão, quando saiu da 15ª posição após problemas mecânicos na largada para ultrapassar o arquirival Alain Prost.

A primeira lembrança vem da vitória em Interlagos, a primeira dele no circuito brasileiro, quando precisou correr apenas com a sexta marcha, uma provação sobre-humana que lhe tirou as forças para erguer o troféu naquela prova, em 1991. A última, infelizmente, é aquela que lhe tirou das pistas.

Mas tirou a vida de Senna? Ainda tenho dúvidas, ou melhor, o garotinho de oito anos – ainda em algum lugar por aqui – tem. Para ele, o eterno capacete verde e amarelo é a marca daquele herói das pistas e, heróis, todos nós sabemos, nunca morrem de verdade.

7 comentários sobre “Heróis não morrem

    1. Todo 1º de maio a lembrança de onde estava quando soube da morte de Senna, mesmo eu não lembrando de nenhuma corrida dele. Virou história.
      Belo texto, Bruno! Emocionante.

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    2. Todo 1º de maio vem a lembrança de onde estava quando o plantão da Globo anunciando a morte começou. Não lembro de outras corridas dele, era muito pequena, mas a comoção na época marcou muito.
      Belo texto, Bruno! Emocionante.

      Curtido por 1 pessoa

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