Dia de clássico

Nada como um clássico decisivo para movimentar a rivalidade, valorizar o campeonato e despertar no torcedor a paixão que anda adormecida em meio a jogos sem graça e de pouco prazer técnico. É nos clássicos que a arquibancada ganha vida, protagoniza cenas de cinema.

Pai e filho em abraço fraternal, como se fosse o último da sua existência. Casais em beijos apaixonados, quentes, aquecidos por um sentimento único e avassalador que brota do cimento frio de seus assentos e da grama verde vívida de calor. Crianças descobrindo na sua inocência o primeiro sentimento longe da família.

Em dia de clássico, a arquibancada vira fonte da juventude. Rejuvenesce os idosos que disparam gritos juvenis. Canções são entoadas em coro, numa harmonia quase celestial. Sem rosto, sem raça, sem sexo, só o coração retumbante e ressoante de paixão desenfreada pela sua agremiação.

É nos dias de choque tradicional de cores que a cidade fica mais bela. O bom dia tem um sabor especial, o boa tarde é ansioso e o boa noite carrega excitação. É dia em que os dedos deixam de apertar botões, de indicar direções, se mostram mais úteis para expressar emoções, talvez até em número, ou números, para ser mais feliz ao mostrar o placar do jogo.

É em dia de clássico, que tenho mais orgulho de ser jornalista esportivo, é o dia em que minhas memórias de infância vêm à cabeça como um turbilhão de emoções, como um fervor de inspiração para tentar descrever o indescritível, materializar o sentimento inatingível, inalienável, que ao mesmo tempo em que é particular, pertence só a mim e a mais ninguém, é tão coletivo quanto o ar respirado pelo estádio lotado de corações, emoções, ilusões e sonhos.

Porque em dia de clássico, o protagonista não está em campo, vestido de uniforme e calçado de chuteiras. Em dia de clássico, ele veste o manto único de quem torce, vibra, faz a bola rolar com um grito e ela parar com um gesto acelerado e nervoso das mãos. Em dia de clássico, a única coisa para qual é possível dizer não é se cogitarem a possibilidade de querer estar em outro lugar.

Hoje, mesmo quarta-feira, mesmo às 21h30, e com o dia de amanhã inteiro pela frente, hoje, a noite é dos apaixonados. A noite é de ABC e América. E não há qualquer lugar do mundo em que eu iria preferir estar que não fosse aquele em que pudesse ser testemunha ocular deste encontro decisivo de paixões.

Reencontro pelo tetra

ABC e América não se encontram numa decisão de Campeonato Potiguar desde 2016, quando o Alvinegro saiu campeão da disputa e iniciou uma trinca de títulos estaduais. Vencedor das últimas três edições da competição, os anfitriões do duelo desta quarta, no Frasqueirão, sonham com o tetracampeonato.

Domínio alvinegro

Mas a vantagem dos abecedistas não vêm apenas das três edições recentes da competição. Nos últimos 10 anos, o ABC conquistou cinco títulos de campeão estadual (2010-2011-2016-2017-2018). O América levou três edições (2012-2014-2015). O Potiguar de Mossoró (2013) e o Assu (2009) tem um título cada.

Troféu monumental

O campeão desse ano receberá uma taça de campeão com as digitais do lendário arquiteto brasileiro Oscar Niemeyer. O troféu é inspirado na torre do mirante do Parque da Cidade Dom Nivaldo Monte. A obra teve projeto de Niemeyer com a colaboração de Ana Niemeyer e Jair Varela, em 2006. É um dos belos cartões postais de Natal e será uma bela lembrança na sala de troféus do campeão de 2019.

Na bronca

O árbitro Luiz Flávio de Oliveira (FIFA-SP) comandará o primeiro jogo da decisão do Campeonato Potiguar 2019 entre ABC e América. O juiz não foi poupado de críticas dos saopaulinos após apitar o clássico do último domingo entre São Paulo e Corinthians pela final do Campeonato Paulista. A arbitragem enfureceu Diego Lugano. O superintendente de relações institucionais do Tricolor tem usado suas redes sociais desde que o jogo acabou para reclamar de Luiz Flávio de Oliveira.

Chora o apito

Quem também está na bronca com a arbitragem de Luiz Flávio é o Sindicato dos Árbitros do RN (Sindafern). Através de nota de repúdio, a entidade criticou o pedido de arbitragem de fora para a decisão desta quarta. O texto fala em “desrespeito” e “desvalorização” da categoria e enumera clássicos de outros estados em que árbitros potiguares teriam protagonizado boas atuações. A nota destaca ainda o custo de R$ 25 mil para garantir o trio paulista, valor cinco vezes maior do que a arbitragem local. Na boa? Também acho lamentável. Turma do apito no RN fica no osso durante todo o campeonato. Na hora do filé mignon…

Cadê o dinheiro?

Vai ter transmissão de TV na final. Mas sem cota para os clubes. A confirmação veio do presidente do ABC, Fernando Suassuna, em entrevista a rádio 95FM. Clubes terão, no máximo, a condição de aproveitar a exibição em rede aberta para buscar patrocínios pontuais. Pouco e bem em cima da hora – e ainda sob o risco de ter as arquibancadas vazias em função do horário da partida.

Transporte

Três linhas de transporte coletivo da capital potiguar receberão acréscimo nos horários de circulação. A frota especial funcionará até uma hora após o primeiro jogo da decisão. Toda a frota de ônibus das linhas 26 (Soledade II/Ponta Negra – Reunidas), 73 (Santarém/Ponta Negra – Reunidas) e 83 (Felipe Camarão/Ponta Negra – Conceição) terão manutenção no horário, fazendo o itinerário até uma hora após o jogo. Ao término da partida, a frota ficará estocada nas proximidades do Posto Shell, na Rota do Sol, para fazer o transporte de retorno dos torcedores às suas casas.

Expresso Frasqueirão

Tanto para ir do Conjunto Ponta Negra ao estádio como no trajeto inverso, os torcedores do ABC podem utilizar gratuitamente o Expresso Frasqueirão, que funcionará duas horas antes do jogo até uma hora após. O serviço tem o controle da Secretaria Municipal de Mobilidade Urbana (STTU).

Disputa improvável

O atacante Jefinho, que disputou o Estadual pelo Potiguar de Mossoró, dificilmente será alcançado na artilharia da competição. Com dois jogos ainda em disputa, apenas jogadores de ABC e América poderiam chegar aos 13 gols – o que seria uma conquista surpreendente. Adriano Pardal, goleador americano, tem nove gols e precisaria marcar quatro nos próximos dois clássicos em disputa. Já Neto, artilheiro do ABC com seis, precisaria mais que dobrar o desempenho no torneio em dois jogos para alcançar o rival.

Aposta

Apostar em clássicos não é exatamente uma escolha inteligente. Poucas coisas são mais imprevisíveis quanto os resultados de um duelo entre arquirivais numa decisão de campeonato. Mas há, de fato, as tendências. E aqui, diante do cenário, retrospecto recente e desempenho nas últimas partidas, o América aparece em pequena vantagem para a decisão. Com a moral elevada pelas últimas atuações, o time parece vir mais equilibrado para a final.

Queda

O ABC, por outro lado, tenta superar o trauma das eliminações recentes na Copa do Nordeste e Copa do Brasil para voltar a navegar em águas tranquilas. Um título pode dar confiança a equipe. Uma derrota e a perda da taça para o rival pode representar uma “caça às bruxas” no Alvinegro e a queda do já combalido Ranielle Ribeiro. Há quem diga que o técnico Roberto Fernandes já estaria na agulha para substituí-lo.

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